Quando um vírus nos separa

Sem título (2)

Escrito por: Marcelo Molina

Um vírus nos separa nesse momento. Vivemos dias onde se isolar é preciso. Nunca demos tanto valor à liberdade de poder ocupar os diversos espaços possíveis que a cidade nos oferece. Um beijo e abraço negado trazem alívio ao invés de dor. Como é frustrante não poder estar junto num momento de extrema angústia. Um microrganismo, invisível a olho nu, nos mostra o quanto somos pequenos, frágeis, impotentes, mortais. Não que já não sabíamos disso, mas é preciso negar para sobreviver ao real. Nossas fantasias de imortalidade se chocam com as impossibilidades da vida, as castrações e seus desdobramentos. Um grande “não” paira no ar. Não sei, não posso, não controlo, não prevejo, não domino. O noticiário nos coloca diante da existência da morte, e as fantasias mais profundas que temos em relação a ela. De repente se torna impossível atravessar o dia sem sentir desprazer, por mais que neguemos, algo grave está acontecendo, logo um dado do real nos fisga. Uma notícia, um comentário ou um simples “cair na real”, nos traz de volta para o caos atual do mundo. O que fazer? Não sei. O que eu faço dentro do meu possível? Me volto a Freud e seu texto de 1929, O mal-estar na civilização. Por que? Por que ele se faz necessário num momento de mal-estar global. Freud em um momento de sua produção nos coloca diante de três fatos que nos impedem do gozo pleno da tão desejada felicidade humana. “O sofrimento nos ameaça a partir de três direções” (Freud, 1996a). O corpo que sinaliza fisicamente as marcas do tempo, da doença e da morte. O mundo externo (a natureza), que a qualquer momento pode romper e devastar nossa existência. E por último, e para Freud o mais difícil de todos, as relações humanas, tão inevitável quanto as outras fontes de sofrimento, afinal precisamos estar em relação com o outro, e isso é fonte de grandes ambivalências, desconfortos e conflitos. O Eu movido pelo princípio do prazer choca-se com o mundo externo e suas fontes de angústia, e logo nasce o princípio da realidade. O real é fundado no momento em que o corpo, a natureza e o outro sinalizam uma falta. Um buraco. Uma impossibilidade diante do desejo do Eu. O Eu está sempre em conflito, já que é impossibilitado pelo o outro, mas também é constituído por ele. Viver é sempre ambivalente. Você de quem não preciso, é também quem me faz continuar existindo. Logo eu preciso estar junto de outros, e num momento como esse isso é negado a mim.

Em tempos onde um vírus ameaça nos devastar fica-se claro nossos sentimentos de impotência diante da vida. Será que comprar todo o estoque de álcool gel da farmácia só para você ou acabar com o papel higiênico do mercado não pensando no próximo é garantia de algo? Será que as ações desesperadas de um Eu apavorado são garantias de sobrevivência? O que é possível então? Já que dez vidros de álcool ainda não são suficientes para desinfetar a angustia que um “não-existir” ou de “possível sofrer” me causam? Também não sei, mas penso que primeiramente admitir que somos frágeis, ilimitados e faltosos, não seria uma ação inteligente diante de um momento que convoca o coletivo a se unir? Já que se eu admito minha ignorância me coloco na posição daquele que não sabe e escuto mais o que é possível se fazer enquanto coletivo? Talvez seja possível sermos humildes e abrirmos mão, nem que por um tempo, dos nossos desejos pessoais, e pensarmos nas necessidades do coletivo para que aí sim possamos continuar existindo, desejando, descordando, conflitando, amando e odiando o mesmo objeto? Não é sobre a sua sobrevivência e seu conforto. É sobre a sua existência depender do coletivo. É sobre aceitar a angustia do momento, o sofrimento que o mundo externo nos causa, afim de encontrar saídas possivelmente felizes dentro dos limites que a realidade nos impõe. Não importa se você vai só ter uma gripe leve, as pessoas em risco também desejam continuar existindo e buscando serem felizes dentro das possibilidades da vida.

Referência:

Freud, S. (1996a). O mal-Estar na civilização (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 21). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1929)

Livro da vez

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No momento estou lendo este livro do Gutfreind, gosto bastante de sua escrita, é suave e bonita. Nesse livro ele fala da psicanálise, mas sem teorizar, ele fala do contato, do encontro, do afeto, do cotidiano, fala da prática que antecede a teoria. Isso é o que mais me encanta no livro até o momento, ele deixa a psicanálise ser. Não tenta amarra-la com nenhuma teoria rebuscada. E nessa liberdade de poder ser livre, ele faz psicanálise. Ela continua tendo sentido, pois foi sentida por alguém

Escrito por: Marcelo Molina

Danado Inconsciente

Escrito por: Marcelo Molina

Quantas coisas tenho pra escrever, mas no momento em que me sento e tento compor um texto bonito, com palavras enfeitadas que me façam parecer culto, me percebo sem inspiração. A imagem que tenho de um bom escritor é que este consegue através de sua escrita transformar os mais diversos sentimentos em palavras, quase como um método de se livrar da tormenta individual que o causa. Como é difícil escrever. Não o ato de escrever, para isso basta cognição, o que me parece difícil é o ato de tirar de lá do fundo da alma algo que não consigo nomear e transformar isso em simbolo. Mas embora seja árduo, aqui me encontro ao lado de um café forte e um cigarro pela metade, tentando transformar o sentir em linguagem escrita, e me pergunto. Será isso realmente possível? Uma vez que o sentir vira linguagem, terá este o mesmo significado de antes? Para mim, escrever é uma tentativa mal sucedida de transformar o desconhecido em algo mais próximo de ser nomeado, pois uma vez que o que não conheço de mim mesmo vira escrita, este deixa de ser. Escrever é ato falho, pois falha quando se transforma em letra, falha porque já não tem o mesmo sentido, falha porque se recusa a receber nome, ou sera que falha para nós que buscamos sentidos e tem sucesso para o inconsciente que transforma o desejo em ação, mas que não nos informa do que se tratava aquela vontade? Danado esse tal de inconsciente, que me encanta e me assusta, que me causa desde de cedo. Conheci o tal do Freud por volta dos 18, e o velho me apresentou o inconsciente, que já me conhecia mas nunca apertamos as mãos, e que se recusa até hoje apertar minhas mãos, pois prefere faze-las suarem, prefere ser sintoma, prefere não vir a tona. Certo é ele, que prefere não ser conhecido, não gosta de ser nomeado, rotulado, definido. Já existe um EU que se ocupa da burocracia de viver. O danado do inconsciente prefere vir ao cotidiano disfarçado, para não ser pego, para não ser encontrado. Esta ai desde que o mundo é mundo, muda a roupa dependendo da época, mas está sempre aqui e lá. Junto do danado, meu caro Freud, o qual odeio e amo, me presenteou com algo mais, me causou um desejo incontrolável de tentar, frustadamente diria eu, de ser mais um desses insanos, que se dedicam à incansável tarefa de capturar o desconhecido que não quer ser conhecido. O deles e o dos outros. Será que conseguem? Acredito que tentam, pelo menos os que vão até as ultimas consequências dessa caça ao danado. Será que um dia ele será capturado? Espero que não. Se não escrever perde a graça, a arte chega ao fim, o analista perde o encanto. Então danado inconsciente, se um dia te capturarem pra gritarem seu nome aos quatro cantos do mundo, continua me causando? Pra eu poder ir cortar as redes que te prendem. Faria por você, e ao mesmo tempo por mim, que preciso de ti, pra vida não perder a graça, e o analista não deixar de tentar.

23/10/2018